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Re: Livros, Livros, Livros... « Reply #1680 on Aug 14, 2009, 4:08am »
"Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa de que uso. Em verdade, como escrevo? Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma. É certo que escrevi antes da norma e do sistema; nisso, porém, não sou diferente dos outros.
Analisando-me à tarde, descubro que o meu sistema de estilo assenta em dois princípios, e imediatamente, e à boa maneira dos bons clássicos, erijo esses dois princípios em fundamentos gerais de todo estilo: dizer o que se sente exatamente como se sente - claramente, se é claro; obscuramente, se é obscuro; confusamente, se é confuso -; compreender que a gramática é um instrumento, e não uma lei.
Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. Um ente humano vulgar dirá dela, "Aquela rapariga parece um rapaz". Um outro ente humano vulgar, já mais próximo da consciência de que falar é dizer, dirá dela, "Aquela rapariga é um rapaz". Outro ainda, igualmente consciente dos deveres da expressão, mas mais animado do afeto pela concisão, que é a luxúria do pensamento, dirá dela, "Aquele rapaz". Eu direi, "Aquela rapaz", violando a mais elementar das regras da gramática, que manda que haja concordância de gênero, como de número, entre a voz substantiva e a adjetiva. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da chateza, da norma, e da cotidianiedade. Não terei falado: terei dito.
A gramática, definido o uso, faz divisões legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em transitivos e intransitivos; porém, o homem de saber dizer tem muitas vezes que converter um verbo transitivo em intransitivo para fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver às escuras. Se quiser dizer que existo, direi "Sou". Se quiser dizer que existo como alma separada, direi "Sou eu". Mas se quiser dizer que existo como entidade que a si mesma se dirige e forma, que exerce junto de si mesma a função divina de se criar, como hei de empregar o verbo "ser" senão convertendo-o subitamente em transitivo? E então, triunfalmente, antigramaticalmente supremo direi "Sou-me". Terei dito uma filosofia em duas palavras pequenas. Que preferível não é isto a não dizer nada em quarenta frases? Que mais se pode exigir da filosofia e da dicção?
Obedeça a gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões. Conta-se de Sigismundo, Rei de Roma, que tendo, num discurso público, cometido um erro de gramática, respondeu a quem dele lhe falou, "Sou Rei de Roma, e acima da gramática". E a história narra que ficou sendo conhecido nela como Sigismundo "super-grammaticam". Maravilhoso símbolo! Cada homem que sabe dizer o que diz é, em seu modo, Rei de Roma. O título não é mau, e a alma é ser-se"
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Re: Livros, Livros, Livros... « Reply #1681 on Aug 20, 2009, 10:36am »
Comecei há pouco tempo ler A Sangue Frio do Capote, e a descrição da cena quando os corpos são encontrados é uma das coisas mais fodas que eu já li na minha vida.
Acabei de ler A Sangue Frio agora, e não sei se mais alguém aqui já leu tambem, mas recomendo esse livro pra caralho. Não que eu tenha lido mto nessa vida, mas esse foi o livro que mais me consumiu, por assim dizer. Meu pscicológico foi pro saco; a história é cruel, violenta, o Capote vai a fundo mesmo.
No prefácio contam que uma vez o Capote estava discutindo com não sei quem, e para encerrar a conversa ele soltou: "Mas pelo menos eu já escrevi uma obra-prima." Arrogância à parte, ele está mais que certo.
acabei karamázov. não sei se virou meu preferido, mas é sem dúvida o livro mais grandioso que já li. incrível como cara abrange todos os assuntos e maneiras de abordagem possíveis. embasbacante.
"papaizinho, quando cobrirem minha cova de terra, espalhe em cima dela cascas de pão para que os pardais pousem, eu vou ouvir que eles pousaram e ficarei alegre porque não estarei só."
Acabei de ler A Sangue Frio agora, e não sei se mais alguém aqui já leu tambem, mas recomendo esse livro pra caralho. Não que eu tenha lido mto nessa vida, mas esse foi o livro que mais me consumiu, por assim dizer. Meu pscicológico foi pro saco; a história é cruel, violenta, o Capote vai a fundo mesmo.
No prefácio contam que uma vez o Capote estava discutindo com não sei quem, e para encerrar a conversa ele soltou: "Mas pelo menos eu já escrevi uma obra-prima." Arrogância à parte, ele está mais que certo.
É brilhante. Genial, simplesmente.
Tive mais ou menos as mesmas sensações que você. O Perry é das coisas mais fascinantes já abrigadas numa página.
acabei karamázov. não sei se virou meu preferido, mas é sem dúvida o livro mais grandioso que já li. incrível como cara abrange todos os assuntos e maneiras de abordagem possíveis. embasbacante.
Até hoje nunca encontrei em nenhuma outra arte nada mais intenso e apaixonante quanto Dostoiévski, e os Karamázov, é o ponto mais alto certamente, até pq, ele meio que faz um apanhado de todos os temas que ele tratou em sua carreira e coloca no livro. O Alióacha reflete O idiota, tem um pouco do ataque ao niilismo de Os possessos, um toque de Crime e Castigo aqui e ali, a desgraça humana vinda do social de provavelmente a maior parte dos seus livros. Eu meio que desprezo essa ideologia cristã ortodoxa dele, mas pqp, é lindo demais
acabei karamázov. não sei se virou meu preferido, mas é sem dúvida o livro mais grandioso que já li. incrível como cara abrange todos os assuntos e maneiras de abordagem possíveis. embasbacante.
Exalt!!!
Acho que os Irmãos Karamazóvi é o melhor livro que já li. É foda demais!!
Faz quase 10 anos que li. Por muito tempo achei que meu preferido fosse A Montanha Mágica, mas ultimamente percebo que tenho sentido mais saudade dos Karamazóvi do que do Hans Castorp. É um livro que me dá mais vontade de reler.
Meu preferido agora deve ser Karamazóvi mesmo. Muito melhor que Crime e Castigo, nem se compara!!
A diferença entre Faulkner em inglês para português é muito maior que a diferença entre 2001 num cinema gigante e numa TV de 14 polegadas em fullscreen. Um pouco a frente da metade de As I Lay Dying e pelo estilo de narrativa, pela variedade de caracterizações, pela riqueza da linguagem (Guimarães Rosa escrevendo sobre o extremo sul dos EUA) e pelas descrições que ficam dançando entre beleza e selvageria um dos livros mais envolventes que já li. Quem gosta de The Sound And The Fury devia ler isso imediatamente.
"Before us the thick dark current runs. It talks up to us in a murmur become ceaseless and myriad, the yellow surface dimpled monstrously into fading swirls travelling along the surface for an instant, silent, impermanent and profoundly significant, as though just beneath the surface something huge and alive waked for a moment of lazy alertness out of and into light slumber again.
It clucks and murmurs among the spokes and about the mules' knees, yellow, skummed with flotsam and with thick soiled gouts of foam as though it had sweat, lathering, like a driven horse. Through the undergrowth it goes with a plaintive sound, a musing sound; in it the unwinded cane and saplings lean as before a little gale, swaying without reflections as though suspendend on invisible wires from the branches overhead. Above the ceaseless surface they stand - trees, canes, vines - rootless, severed from the earth, spectral above a scene of immense yet circumscribed desolation filled with the voice of the waste and mournful water."
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Re: Livros, Livros, Livros... « Reply #1689 on Oct 8, 2009, 5:50pm »
Fui ler o começo de Daisy Miller outro dia e acabei lendo de uma vez o conto todo, do mesmo nível de The Turn of the Screw. Cheio de valores elitistas bestas, mas que são necessários pra criar a mulher.
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Re: Livros, Livros, Livros... « Reply #1693 on Dec 6, 2009, 12:33pm »
Melhor editora brasileira (pau a pau com a Cia.), putaquepariu.... E os livros nem são tão caros para os que eles fazem. Custam sempre 60, 70 reais, e são todos de capa dura, papel maravilhoso, etc., etc.
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Re: Livros, Livros, Livros... « Reply #1694 on Dec 6, 2009, 12:56pm »
Não são todos de capa dura, mas são todas um show a parte, como a de "Bartleby - O Escrivão", do Melville.
Já a Rocco deve ser a pior (não considero a Martin Claret, lógico). Putas capas feias, aquele papel excessivamente branco, traduções questionáveis. Um horror.